
Quando a bola rolar entre Brasil e Marrocos, no campeonato de futebol masculino, a disputa ficará restrita às quatro linhas do gramado. Fora delas, os dois países compartilham uma característica importante: são protagonistas em cadeias minerais estratégicas para o planeta.
Se o Brasil é uma potência em minério de ferro, nióbio e diversos minerais essenciais para a transição energética, o Marrocos ocupa uma posição única quando o assunto é um recurso fundamental para a produção de alimentos: o fosfato.
Pode parecer estranho à primeira vista, mas existe uma boa chance de que parte dos fertilizantes utilizados para produzir os alimentos consumidos diariamente pelos brasileiros tenham alguma relação com a mineração marroquina.
O gigante dos fertilizantes
O Marrocos abriga cerca de dois terços das reservas conhecidas de fosfato do planeta. Em 2024, o país produziu cerca de 30 milhões de toneladas de rocha fosfática comercializável e detinha aproximadamente 50 bilhões de toneladas em reservas, o equivalente a cerca de dois terços das reservas globais estimadas. O fósforo, obtido a partir do fosfato, é um dos principais nutrientes utilizados na agricultura. E existe um detalhe importante: não há substituto direto para ele. Em outras palavras, sem fósforo não existe agricultura moderna em larga escala.
Por isso, embora o Marrocos não esteja entre os maiores países do mundo em extensão territorial, sua mineração exerce influência direta na produção de alimentos em diversos continentes, o que coloca o país em uma posição estratégica para a segurança alimentar global.
Mineração marroquina
O setor mineral é uma das principais fontes de divisas do Marrocos. Em 2021, a mineração respondeu por cerca de 30% do valor total das exportações, 9% do PIB nominal e aproximadamente 40 mil empregos diretos. Em 2020, 90% da contribuição setorial ao PIB nominal vinha da mineração de fosfato e do processamento de produtos fosfatados, evidenciando forte concentração econômica na cadeia de fertilizantes.
A mineração não fosfática é menor em escala, mas relevante para a estratégia de diversificação. Barita, cobalto, prata, cobre, chumbo, zinco, fluorita, manganês, sal, feldspato, argilas, bentonita, trióxido de arsênio e materiais de construção compõem uma base mineral diversificada, com conexão crescente à agenda de minerais críticos e processamento local.
A leitura correta da mineração marroquina exige separar a dominância de relevância. O Marrocos é dominante em fosfatos; nos demais minerais, possui uma base diversificada, com importância regional e presença em rankings globais, mas sem escala comparável à de grandes produtores mundiais de cobre, ferro, níquel ou ouro.
Muito além da mineração
Ao longo das últimas décadas, o país construiu uma estratégia que integra mineração, indústria química, logística e exportação. Em vez de vender apenas a rocha fosfática, investiu fortemente na produção de fertilizantes e produtos de maior valor agregado.
Essa integração transformou o país em um dos principais hubs globais da indústria de fertilizantes, fazendo da mineração uma importante fonte de exportações, empregos e desenvolvimento econômico.
E qual a ligação com o Brasil?
A relação entre mineração e agronegócio é mais próxima do que muitas pessoas imaginam. Os minerais extraídos do subsolo ajudam a produzir alimentos, gerar energia, fabricar equipamentos e impulsionar diversas atividades essenciais para a economia.
O Brasil é uma das maiores potências agrícolas do mundo e depende de fertilizantes para manter a produtividade de suas lavouras. Por isso, o acesso seguro a matérias-primas como o fosfato é um tema estratégico para a agricultura brasileira.
Além do fosfato
Embora seja conhecido mundialmente pelos fertilizantes, o Marrocos também produz outros minerais importantes, como prata, cobre, zinco, chumbo, manganês, fluorita, barita e cobalto.
Este último tem ganhado destaque por sua utilização em baterias e tecnologias ligadas à transição energética, aproximando o país das discussões globais sobre minerais críticos e estratégicos.
Mineração que conecta países
Brasil e Marrocos possuem realidades minerais bastante diferentes, mas complementares.
Enquanto o Brasil se destaca pela diversidade de recursos minerais e pelo potencial para fornecer insumos para a transição energética, o Marrocos ocupa uma posição central na cadeia global de fertilizantes.
Mais uma prova de que a mineração está presente muito além das minas: ela conecta países, fortalece cadeias produtivas e ajuda a garantir alimentos, energia e desenvolvimento para bilhões de pessoas.
No futebol, o duelo acontece dentro de campo. Fora dele, Brasil e Marrocos mostram como os minerais também podem ser protagonistas.
Fontes:
- U.S. Geological Survey (USGS), Minerals Yearbook 2020-2021: Morocco, publicado em 2025.
- U.S. Geological Survey (USGS), Mineral Commodity Summaries 2025: Phosphate Rock.
- OCP Group, resultados financeiros 2024 e Green Investment Plan 2023-2027.
- International Energy Agency (IEA), Morocco Mines Plan 2021-2030.
- Natural Resource Governance Institute, Resource Governance Index 2021: Morocco Mining.
- Emmerson PLC, Khemisset Potash Project e comunicações públicas sobre disputa/arbitragem.
- Aya Gold & Silver, informações públicas sobre Zgounder.



